quinta-feira, 30 de abril de 2009

VOCAÇÃO, MARKETING E ÉTICA.

Quando criança, eu era filósofo. Lembro de minha mãe passando roupa e tentando me responder perguntas impossíveis.
-O que tem depois daquela estrela? e depois da outra? e da outra?
Minha mãe dizia: - Chega menino! Isso só quem sabe, é Deus!
Tomei então a firme decisão de me tornar padre, pois não só passaria a entender as coisas divinas, como garantiria meu lugar no céu. Parecia um ótimo negócio.
Cresci um pouquinho e comecei a argumentar. Logo todos diziam que eu ia ser um grande advogado. Ninguém prestou atenção nas poesias que eu escrevia que logo se tornaram letras de música. Comecei então a cursar a faculdade de Direito, quando um ano depois surgiu a faculdade de comunicação. Nessa época, além de poesia e letras de música, eu já fazia jingles publicitários e ganhava o suficiente para pagar a faculdade e a prestação de uma moto Yamaha 125 cc. Mas dava expediente num escritório de advocacia. Um dia bateu à porta, um bando de menores infratores. Vivíamos os anos 70, o período mais duro da ditadura. Os jovens relataram que estavam roubando um carro, quando foram surpreendidos pela polícia. Todos fugiram. Menos um que tinha um defeito físico, mancava de uma perna. O fato é que esse membro do bando estava desaparecido, mas sabia-se que estava preso em uma delegacia, o que era ilegal, pois ele era menor de idade. Eles queriam um Habeas corpus, para soltar o menor. Tocado, talvez pelo fato de ter um irmão que também manca de uma perna, decidi pegar a causa. Eu ainda era estagiário, mas o advogado dono do escritório, assinaria por mim quando necessário. Fui até a delegacia. Denunciei ao delegado verbalmente, que havia sido informado que um menor, portador de defeito fisco, lá estava detido. Solicitei informalmente que o soltasse, senão teria que entrar com o Habeas corpus. O delegado respondeu:
- Doutor, o senhor me parece tão jovem. Porque está defendendo esse marginal? Siga meu conselho, deixe esse caso, se alguém está sumido, não vai fazer falta, é gente que não presta.
O senhor não vai querer arrumar inimizade com a polícia logo no início de sua carreira vai? Vá por mim, não vale à pena.
Confesso que saí de lá preocupado, pois era uma época em que as pessoas desapareciam sem deixar vestígios. Tive então uma idéia. Liguei para um amigo meu repórter na Folha da Manhã de Porto Alegre, e contei a ele a história sugerindo uma pauta para as páginas policiais. Ele pegou o fotógrafo, a camionete do jornal e foi à delegacia. O delegado naturalmente negou tudo. Mas o fato é que naquele mesmo dia recebi um telefonema de uma senhora me agradecendo, pois seu filho tinha sido solto.
O menino filósofo que queria ser padre se tornou publicitário, roteirista e diretor de cinema e televisão, e mais recentemente trabalha com marketing político.
Hoje quando vai ao ar no Jornal Nacional um programa político escrito por mim que será assistido por milhões de pessoas em todo o Brasil vejo que não mudei muito.
Continuo usando a mídia para pressionar o delegado.

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