segunda-feira, 29 de março de 2010

ARMANDO VOOU DE VEZ...

Tive a honra de trabalhar intensamente com Armando Nogueira durante quatro anos, no “Esporte Real”, o primeiro programa esportivo que ele apresentou na TV a cabo. Fui chamado para escrever e dirigir o programa por seu criador, Luiz Gleiser, e pelo produtor Mauro Richter. Gleiser era na época diretor geral da GLOBOSAT e Mauro era dono da produtora Televisão Profissional, que seria responsável pelo programa, que viria a ser, possivelmente, a primeira produção terceirizada na TV por assinatura no Brasil.

Gleiser e Mauro julgaram que eu teria afinidade com o estilo do Armando. E tinham razão. Logo nos tornamos mais do que colegas, ficamos amigos. Nosso programa, o Esporte Real, era feito com carinho artesanal. Armando fazia questão de fazer o programa um a um, a cada semana. Nada de adiantar programas para melhorar a relação custo/benefício da produção. Armando queria cada programa como se fosse o único.

Assim, nos reuníamos todas as semanas no estúdio da GLOBOSAT onde ficávamos três ou quatro horas gravando exclusivamente a parte do estúdio. A primeira hora de gravação era dedicada à descontração. Bate papo que incluía os câmeras, iluminadores, editores, contra-regras. Armando fazia questão de que a descontração fosse real para que transparecesse no programa. Depois, fazia ajustes no texto que eram verdadeiras aulas de mestrado para todos nós. Cada palavra era valorizada pelo ritmo, pela imagem, como se fosse única. Após as gravações, almoçávamos no restaurante da GLOBOSAT. Esse ritual se repetiu durante quatro anos.

Mas além de trabalhar com Armando, tive o privilégio de beber bons vinhos com ele, de voar de ultraleve, de passar tardes de domingo no Céu, Clube esportivo de Ultraleve, assando uma picanha para a turma e um peito de frango para ele. Armando amava a vida como poucos. Uma vez, voando de ultraleve, ele desligou o motor e disse: “Paulo, as pessoas pensam que voar é inseguro, mas veja, estamos aqui no ar, sem motor, voando como pássaros e não há nenhum risco, pois eu tenho sempre um plano seguro de aterrissagem. Só vôo em trajetos que conheço profundamente, onde a qualquer momento eu possa pousar em segurança”.


Nesse dia melancólico, em que o jornalismo brasileiro perde um dos seus maiores nomes, e em que eu perco um amigo e mestre, lembrei dessa passagem e pensei. Armando não vivia na terra como simples mortal. Armando vivia voando como pássaro, e quando pela primeira vez percebeu que não podia pousar em segurança, arremeteu e voou de vez...

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